Mércia

A nossa primeira visita a campo, ocorrida no dia 15/03/16,  na Unidade Básica de Saúde José Maria de Magalhães Neto, teve como objetivo um primeiro contato com os profissionais de saúde que atuam na área, para que nos conhecêssemos e criássemos laços necessários para próximos passos da grande missão: A territorialização!! Nessa primeira reunião , contamos com a presença da enfermeira Fernanda, uma das gestoras da Unidade, e por isso de grande importância para o nosso trabalho, visto que necessitamos de  cumplicidade,  confiança e oportunidade para realizar um bom diagnóstico local. E também, com a presença da Maura, Isabela , Rita e Juliana, que desenvolvem o trabalho como Agentes Comunitárias na área, e também serão essenciais contribuintes, por conhecerem e vivenciarem todos os dias a realidade, as dificuldades e necessidades do território ao qual iremos nos aprofundar.
Nesse primeiro contato, o professor Fábio apresentou a Universidade e o projeto  que pretendemos desenvolver junto ao serviço de saúde e a comunidade. Em seguida, a Fernanda, em um diálogo bastante aberto nos relatou sobre os serviços que funcionam na Unidade, suas demandas e as dificuldades que existem. Nos contou que ali funciona o atendimento da tuberculose e hanseníase e que até pouco tempo a comunidade estava desassistida, numa situação em que muitos não sabem sequer o que é um agente comunitário de saúde. Através de uma dinâmica realizada por nossa equipe, envolvendo perguntas sobre o cotidiano no ambiente de trabalho e na vida em geral, conseguimos com que as AC's, de forma espontânea, relatassem o dia a dia em comunidade, e também suas dificuldades, problemas a serem enfrentados todos os dias, mas também satisfações e alegrias a respeito do trabalho que desenvolvem. Dentre os vários relatos, me chamaram atenção aqueles que tratavam do péssimo tratamento que recebiam em algumas residências que visitavam, e ainda relatos de colegas que já foram assediados em algumas visitas feitas. Outras, no entanto, nos contaram da  satisfação que é visitar um idoso que vive sozinho e tanto necessita de uma companhia para simplesmente "bater um papo". Nos contaram que a confiança é a principal tarefa a ser desenvolvida por eles e sem ela é impossível atuar na comunidade. "Eles acham que tudo é a política", disse uma delas ao discursar sobre a dificuldade de se dialogar com a comunidade por estar tão desesperançosa com as autoridades locais. Porém, apesar do médico atender apenas uma vez por semana, não haver sequer uma balança ou um aparelho para aferir a glicemia dos pacientes, e apesar de tanta insatisfação da comunidade, o meu primeiro olhar foi bastante positivo em relação aquele local, pois pude perceber que apesar dos poucos recursos físicos e financeiros, existe muita força de vontade por parte das profissionais de saúde que ali atuam, para se promover saúde, prevenir doenças e reabilitar enfermos.
Ao fim desse encontro, definimos data para a próxima visita que envolverá o acompanhamento das AC's em suas visitas tradicionais, para um maior contato  e observação das micro - áreas.
A seguir, registros de imagem desse encontro UFSB na Unidade Básica de Saúde.



 

Nossa segunda visita ocorreu no dia 22 de março. Nela, cada um dos integrantes da equipe acompanhou um Agente Comunitário de Saúde até a sua micro - área, para iniciarmos o processo de territorialização. Desse modo, passei a acompanhar a agente Tamara, que com muita boa vontade, me mostrou toda a sua micro - área, que compreende quatro ruas do bairro Pontalzinho e me explicou questões importantes acerca de todo esse trabalho.
Ao caminhar pelo território, percebi que ali não existem grandes problemas ambientais que interfiram de forma negativa na qualidade de vida dos moradores. As ruas são todas pavimentadas com asfalto, não corre esgoto a céu aberto, as residências são de alvenaria, há coleta de lixo, e fácil acesso a bens e serviços, por se tratar de um bairro próximo ao centro da cidade. Identifiquei também, a existência de uma pequena praça que poderia se tornar um espaço de lazer para os moradores.
Ao passo que percorríamos o território, a Tamara me explicava que os AC's daquela área estão no período de cadastramento das famílias, pois até setembro de 2015, a comunidade estava desassistida. O cadastro então, é feito individualmente com cada morador, através de uma ficha que  reúne os dados pessoais, número de cartão do SUS, informações sócio - demográficas e condições/situações de saúde em geral. É importante ressaltar que a ficha contém um espaço para cidadão em condições de rua, que em tese, também deve ser assistido pelo programa de Atenção Básica. Esses dados, ao serem coletados, são encaminhados para a Secretaria de Saúde, para alimentarem o Sistema da Atenção Básica e-SUS.
Em nossa primeira visita para cadastro de moradores da travessa Belo horizonte, fomos atendidas por uma idosa com deficiência auditiva, que por não nos compreender chamou a filha e esta pediu que voltássemos outra hora pois ela estava bastante ocupada com os afazeres domésticos. Na segunda casa, fomos recepcionadas por um rapaz, médico veterinário, que reside com a mãe e outros 3 familiares que só chegam aos fins de semana. O rapaz alegou não ter nenhum problema de saúde e me pareceu morar em condições adequadas: casa de alvenaria, com piso de cerâmica, bem ventilada, com acesso a água potável. Possui dois animais de estimação , sendo um gato e um cachorro. A mãe, estava trabalhando no momento, mas ele já nos adiantou que ela também não possui problemas de saúde . Quanto aos outros moradores, a Tamara teria que voltar no sábado para cadastrá-los. Na quarta visita, uma senhora nos atendeu e pediu que voltássemos em outro horário pois estava com panelas no fogo e precisava cuidar do filho que iria para a escola. Na quinta casa, fomos atendidos por uma jovem, que afirmou não morar ali, e o seu namorado que mora na casa sozinho, estava trabalhando no momento. Na sexta visita, fomos atendidos por um rapaz, publicitário, autônomo, que estava de saída para o trabalho, mas nos atendeu pensando sermos agentes de endemias. Ele relatou estar preocupado com a situação pois há 6 meses não recebia nenhum agente para colocar larvicida em sua residência, mas também relatou que é difícil encontrá-lo em casa, pois tem uma rotina bastante corrida. Desse modo, a Tamara aproveitou para fazer o seu cadastro. O rapaz, reside sozinho, em condições de moradia aparentemente adequadas e relatou não ter nenhum problema de saúde. Importante ratificar, que o mesmo não possuía plano de saúde, situação que a Tamara me informou ser uma exceção na micro - área.
No decorrer das visitas, pude confirmar que a principal barreira encontrada pelas agentes, pelo menos naquela área,  realmente é a falta de recepção de muitos moradores, que na maioria das vezes alegam estar ocupados, sem tempo para atender, e em outros casos, estão de saída ou já estão no trabalho ou escola, pois muitas residências encontram-se totalmente fechadas. Um dos motivos que justificam essa questão, segundo a Tamara, é o fato de que a maioria possui plano de saúde e acredita não precisar dos serviços públicos. Ela relatou inclusive através de experiência própria, que em bairros periféricos e mais afastados do centro, a situação é completamente diferente, pois os moradores , por viver em condições socioeconômica inferior, carecem muito mais de assistência e dessa forma, fica muito mais fácil atuar na comunidade. Outro fator, é a desconfiança de receber alguém desconhecido em sua residência, já que a Tamara me informou que depois da notícia de que dois homens caracterizados como agentes de endemias entraram numa casa no bairro São Caetano, amarraram uma senhora e levaram dela mais de 3 mil reais, aumentou o índice de recusa aos agentes e, inclusive, de desrespeito em muitos casos.
A respeito dos principais problemas de saúde identificados, apesar de, dentre as visitas que conseguimos fazer, não ter sido identificado nenhum, a Tamara me informou que a Hipertensão é recorde em sua micro -área, onde residem muitos idosos.
Como ferramenta de fiscalização do trabalho dos agentes, ao interrogar a Tamara como se dava esse processo, ela me mostrou uma Ficha de Visita Domiciliar e me explicou que em cada visita, o agente precisa registrar na ficha o número do cartão do sus , alguns dados pessoais e o objeto da visita. Dessa forma, se um agente não cumpre o seu trabalho, em tese, não há como preencher a ficha.
Para mim, esta primeira experiência dentro do território foi bastante significativa, pois pude compreender um pouco como é feito o trabalho dos agentes, perceber as principais características do território, e  perceber na prática as dificuldades e barreiras encontradas para atuar em sociedade. A partir de então, começo a pensar nas formas de se aproximar essa comunidade da Unidade Básica de Saúde, para o estabelecimento de confiança e parceria entre eles. A criação desse vínculo, certamente será o primeiro passo para promover saúde, interferindo na qualidade de vida dessa população.

No dia 19/04, seguimos com a coleta dos dados na UBS, de acordo com a técnica da Estimativa Rápida, que nos permitiu avaliar as características demográficas e epidemiológicas do território de abrangência da Unidade. E a partir de então, identificarmos as necessidades de saúde e os problemas que afetam a área territorializada por nossa equipe.

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